Porque há uma certa semelhança de sentimentos com 2006.
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Então você tem vinte e um anos, são sete e vinte e oito da manhã e você está acordado em uma manhã de Natal.
São estranhas as coisas que lhe ocorrem em uma manhã de Natal. Àquela devastadora maioria que não conhece estas poucas horas, conto: é um outro mundo, dotado de um vazio avassalador, pontuado por cenas bizarras. A manhã de Natal é feita para poucos tendo em vista o profundo efeito perturbador que sua lassidão e calmaria trazem.
Não acho que todo mundo dê conta de um manhã, assim cedo, de Natal. O coração estava partido desde então, e eu jogado no sofá, sete e vinte e nove; “eu deveria fazer uma panqueca”, eu pensei, mas isso certamente me atrasaria para qualquer compromisso que eu não tinha. “A maior parte das pessoas vai morrer sem conhecer o que é uma hora dessas”. Toda a rua assumia um tique-taque mecânico e inexistente, e é o tipo de sensação que significa muito – especialmente um ano depois, quando já se chegou aos vinte e dois e já se é aquela coisa toda.
“A maior parte das pessoas”. E, de fato, é isso mesmo – a maior parte das pessoas não conhecerá as manhãs brancas de Natal, e a maior parte das pessoas não reconhecerá o efeito igualitário dos dias nublados. Isso não é bom ou ruim – é apenas, como a manhã branca, como a manhã ociosa, um reflexo em um espelho.
Ainda não foi encontrada qualquer outra pessoa com a qual eu pudesse falar sobre as manhãs de Natal – sobre as coisas estranhas que acontecem, e sobre os pássaros que cantam coisas diferentes, e sobre o que se vê e que nunca se pode comentar. Se tal criatura existe, é claro que firmamos um pacto antigo sobre o qual ainda não pudemos discorrer.
Conforme outro Natal se aproxima, afasta-se a sensação de qualquer coisa que tenha acontecido em 2006 – cria-se a expectativa não por presentes, mas pela manhã branca e secreta que divido com um companheiro imaginário, nossas discussões abafadas pelo som gritante de um silêncio tão bem delineado que mal é lembrado.