Você certamente ouviu falar sobre o evento pop do ano a esta altura do campeonato. O show da cantora Madonna, marcado para dezembro no Brasil, em três apresentações divididas entre Rio de Janeiro e São Paulo, rivaliza ou supera o mata-mata vivido em 2006 quando da vinda da banda irlandesa U2. Congestionamento no site, filas assustadoras e telefones sempre ocupados quase me impediram de conseguir meu singelo ingresso – que só consegui, aliás, graças a ajuda de amigos.
Com um setlist já divulgado, começam as reclamações. “Mas eu queria mais coisas de Confessions!”, alguns dizem. O mesmo povo que sempre reclama que a Madonna deveria voltar a ser puta ignora completamente o fato de que o álbum mais claramente sexualizado dela – Erotica, lançado na época do livro Sex – foi simplesmente deixado de fora da lista de músicas.
Mas aí está um ponto importante: Madonna nunca foi tão puta assim. Sério. Pense comigo. Está bem que ela fez aquela performance no MTV Music Awards, escreveu o já citado Sex, beijou Aguilera e Britney e tudo o mais. Ela se diz um homem gay em um corpo de mulher e escreveu Physical Attraction e Erotica. Existe aquela releitura de Like a Virgin no começo de Cães de Aluguel, mas, bom, isso é mais sobre ela do que dela, mesmo.
Qualquer pessoa que diga que a Madonna é uma puta, ignora seu histórico de singles. Peguemos as suas duas grandes coletâneas, Immaculate Collection e GHV2: Lucky Star, Borderline, Crazy For You, Into the Groove, Open Your Heart, Like a Prayer, Express Yourself, Cherish, Deeper and Deeper, Secret, The Power of Goodbye, Frozen, Take a Bow e Drowned World são músicas fortemente marcadas por uma veia romântica que, junto com o estilo dançante, caracterizam maior parte da obra da rainha do pop.
E a Madonna sempre solta alguma música sobre seus relacionamentos. Confirmadíssimo é que Till Death Do Us Part, de Like a Prayer, uma canção bem tensa sobre seu casamento com Sean Penn. E ainda na arena dos casamentos, tudo indica que Miles Away foi um desabafo sobre ela e Guy Ritchie. Assim como I Deserve It o foi, anos atrás.
Isso sem falar nos perrengues que Madonna passa com o pai. Ou passou. Todos se lembram de Papa Don´t Preach, mas as pessoas deixam de lado a dolorida Oh Father e a maravilhosa e autobiográfica Mother and Father.
Agora, quem está na comunidade analisa bem isso? Eu acho que não. Tudo bem que até eu me enjôo um pouco do ioga e da cabala e da criança roubada do terceiro mundo.