Posts de Junho, 2008

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Ela voltou

Junho 18, 2008

Por idos de 2005 ou 2006, rolavam boatos de que Alanis Morissette se tornara incapaz de criar qualquer coisa nova. Também pudera – depois de So-called Chaos, só entregara uma versão acústica do CD que a alavancara para o verdadeiro sucesso – Jagged Little Pill – e uma coletânea das melhores canções que acompanhava um cover da lendária Crazy do cantor Seal. Pior que isso, diziam que a tocha havia sido entregue à Avril Lavigne – como se a punk de butique fosse capaz de escrever metade do que a cantora canadense é.

Pois bem. A espera acabou. Alanis consegue sim escrever coisas novas e é justamente isso que ela faz em seu novo álbum, Flavors of Entanglement. Lançado em duas versões – uma com cinco faixas a mais – ele ainda é Alanis clássica. Você ainda vai sentir aquela angústia e raiva ouvindo Citizen of the Planet. Mais importante, você vai se lembrar muito da fase pós-Índia de Supposed Former Infatuation Junkie – especialmente quando cair na faixa Incomplete e a vir como uma espécie de releitura ou avanço de That I Would Be Good.

Mas não é só isso. Ela trouxe surpresas. Qualquer um acostumados aos violões e guitarras da canadense há de ter uma bela surpresa ao ouvir Straitjacket – que, em letra, é essencialmente Alanis, mais uma canção sobre um relacionamento doente. Mas trata-se de um arranjo extremamente atípico. Até mesmo The Guy Who Leaves contém certas cores musicais não propriamente exploradas antes.

É seguro dizer, entretanto, que a maior surpresa fica para a última faixa das bônus, On the tequila. Alanis entrega uma música alegre sobre uma reunião de amigas, nostalgia e, é claro, tequila. Impossível terminar esse CD de cabeça baixa. Para os fãs antigos – e para os novo, que certamente se deixarão fisgar por Underneath.

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The kids aren´t alright

Junho 17, 2008

Nem parece, mas já tem bem uma década que o Offspring foi para as paradas com essa música. Dez anos passados, eu fico um domingo inteiro debruçado em arquivos de Word, livros e sites na internet tentando me perguntar como estão as crianças mesmo.

A pesquisa acadêmica me levou a um patamar interessante. Seja por pesquisas em textos na Veja, livros do Don Tapscott ou textos sobre usabilidade, uma coisa é fato – eu não sabia, até então, o que era uma criança.

Na verdade, as aspirações são drasticamente diferentes do que eu imaginava. Embora eu mesmo já seja de uma geração que se criou com uma mídia muito mais participativa e interativa, não imaginava que o espaço dos meios de comunicação se dividisse com a família. Mais chocante ainda foi descobrir que as crianças hoje em dia preferem roupas de grife a brinquedos e que mais de 70% dos meninos de 7 a 11 anos de idade pensam em namorar já!

Certamente quando me refiro a uma criança interior, penso em algo que não corresponde à realidade cotidiana.

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A ditadura da liberdade

Junho 4, 2008

Tudo começou com uma folheada de um livro. Depois, evoluiu para a leitura de outro, sobre as transformações da intimidade na Modernidade (que, aliás, é uma excelente leitura – traz insight sobre como a liberdade sexual tem a ver com o uso de métodos anti-gravidez e conseqüente desvinculação de sexo e redução de expectativa de vida, e também sobre como o advento de se assumir a homossexualidade gerou a noção contemporâneo de relacionamentos sérios que não são validos por laços matrimoniais).

Caímos em um modelo de mundo diferente. Todos somos livres para fazermos o que quiseremos – everybody´s free to wear sunscreen! Verdade seja dita, são todos outros tempos. Matrimônio virou namoro que virou rolo que virou ficar que virou catar. A tecnologia agora permite, mais do que nunca, que façamos modificações em nossos corpos – novas cores de cabelo, mudanças grande de forma (e às vezes de sexo!) e apêndices biônicos. Escapamos ao atavismo biológico e ganhamos suposto pleno controle e livre arbítrio para fazermos o que bem entendemos com nossos corpos. Isso, é claro, dentro de toda aquela pressão pós-moderna para sermos diferentes e únicos – que, no fim das contas, invalida qualquer chance de ser especial e se destacar na multidão.

E aí exatamente em que começa o problema. Em acreditar que tudo o que se faz hoje em dia é cutting edge, novo e revigorante, como uma grande ruptura repentina na história humana e dos afetos. As pessoas falam de piercings e de raves ignorando adornos tribais e rituais xamânicos de arrebatamento – repetimos as mesmas coisas de novo e de novo, acreditando que essa tatuagem que marca um momento especial de nossa vida nos faz diferentes e especiais, mas é muito menos que cicatrizes em ritos de passagem africanos. Acabamos um pouco rasos nissos.

E a vida noturna?  Luzes, batidas e dança – pessoas exercitando a libido em cantos mais escuros, trocando saliva e às vezes um pouco mais, como se essa fosse a maior invenção humana. E a verdade é que isso é animal e básico, e que isso precede a cultura (ler Huizinga, aliás, me faz pensar se esse tipo de ação não é uma variável do jogo).

E tudo isso se torna elonqüentemente desatinado quando existe a cobrança: aceite. Participe. Tenha piercings e curta tatuagens, e também fique com dez pelo menos por ano – este é o manual de conduta das pessoas felizes. Exercite essa sua liberdade e será pleno – esquecendo, é claro, que o não-exercício desses direitos ou dessas regalias é também o exercício da liberdade.

Ninguém disse que o excesso de liberdade é uma boa coisa. Somos pressionados socialmente a usarmos dessa abertura e rechaçados se não o fizermos. Mas e se o caminho não for esse? Aceitar isso não indicaria que a vida dos monges e dos padres e dos ascetas seria triste e vazia? Sinceramente, vejo mais serenidade  plenitude em alguns destes do que em muitos dos que se agarram firmemente a essa onda de alterações e de possibilidades.

Antes que me apareçam com aríetes e tochas na porta de casa – não, não sou contra a casualidade e nem contra body modifications. De fato acredito no uso dessa liberdade e que hoje em dia só sai prejudicado disso quem for muito ingênuo ou azarado. Mas sou veemente quando o assunto é essa pressão para exercer e ingressar nesse mundo, quando, na verdade, a negação pode ser uma afirmação em si.