Uma busca pelo meu nome no Google resulta em mais de 10 páginas. Das primeiras 20 entradas, 18 são referências diretas a mim. Antes do computador entrar com força total na jogada, para ser listado, você precisava, grosso modo, criar algo, destruir algo, salvar alguém ou acabar com alguém. Agora, em contrapartida, três cliques e você virou informação. Novamente, agora todos têm direito a seus cinco minutos de fama.
Estava lendo Wikinomics, um livro que fala sobre colaboração em rede mudando negócios – e, na verdade, mais do que isso, métodos de produção em geral – e pensando muito sobre as redes sociais. Flickr, Wikipedia e MySpace são sintomáticos. Um dos autores é Don Tapscott, que também escreveu Geração Digital, outro livro que está aqui sentado esperando pra ser lido.
Em redes sociais, falamos de regimes de visibilidade. Um trecho do Wikinomics que eu achei muito bem colocado foi justamente um que fala sobre o MySpace. O fato da diminuição da idade mínima para 14 anos fazer o número de cadastros subirem como um foguete não foi casual – foi do mundo. Hoje em dia, a escola é desestimulante para adolescentes, os shoppings e locais públicos os acham barulhentos e inconvenientes, ainda são novos demais para a vida noturna e reunir-se em parques e similares é muito perigoso. Usam, então, o digital como ferramenta de expressão – criam uma privacidade além-quatro paredes do quarto com o auxílio de um computador. Pessoas reclusas contam com mais de 1000 amigos, embora, como é de se esperar, pouco se saiba do outro além do screenname. O digital dá uma certa liberdade a pessoas que, de outra forma, seriam completamente sufocadas.
Mas já toquei o que parece ser o lado positivo da questão. A questão oposta, que não é a de busca por popularidade (mesmo porque essa acontece sempre, em todas mídias), a verdadeira fobia de ser reconhecido, é o lado sombrio da rede.
Durante muito tempo, a web permitiu anonimato. A grande vantagem era que, salvo os hackers, você podia adotar um apelido numa sala de bate-papo e permanecer para todo tempo um ilustre desconhecido. Coberto por camadas de conexão discada e IP mutante (ou que se dizia mutante…), você gozava de um véu de proteção. Com a entrada do Google e dos mais buscadores por relevância, de ferramentas de auto-promoção fáceis de usar como blogs e fotologs e dos canais de rede, fóruns e listas de discussão, entretanto, tornaram fácil mapear suas ações. Afinal de contas, você não precisa mais fazer algo catastrófico ou messiânico pra ser listado, não nesse mundo virtual.
Eu tenho usado o Orkut desde 2004. Só em 2006 é que eu fui me dar conta das pequenas neuroses que ele engendra. Acompanhemos o raciocínio – por volta de abril ou maio o Orkut lança uma nova funcionalidade, que permite que você veja quem visitou você. Você pode até desligá-la, mas então não verá quem te visitou. As pessoas, então, param de visitar perfis alheios por medo de aparecerem na listagem ou desligam a funcionalidade. Algumas, entretanto, não desligam a funcionalidade e criam perfis falsos, declaradamente irreais ou cuidadosos alter-egos – o que nos remete à vontade de anonimato que tínhamos satisfeito poucos anos atrás.
Ano passado, entretanto, o Orkut se superou. Criou permissões de acesso a fotos e recados que mais parecem estratégia de marketing para que assine um site de namoros. Agora, você pode fuçar recados e fotos dos incautos e permanecer nas sombras – o que, convenhamos, é a mais pura covardia. Você tem seu lugar, pode se comunicar, mas de repente ninguém pode saber de você. Perdi as contas de quantas pessoas eu vi retirando suas informações depois dos visitantes de perfis ou permissões de visualização – desse medo da vigília constante.
É possível arriscar dizer e ser bem comum ao fazê-lo – começamos a viver em uma sociedade de controle. E não é o controle exercido por uma grande mente única, seja ela Big Brother ou Google. É um controle exercido e validado porque todos se vigiam. Já imaginou que alguém pode pesquisar você num buscador? Se tiver feito um vestibular, saído em alguma notícia ou criado um artigo, você já é visível. É uma versão mais cruel e competente da vizinha que marcava todos os passos da vizinhança.
O horror da rede é o seguinte – para garantir seu espaço, você precisa se expor. Sinceramente, sou daqueles que acha que, se não estiver disposto a arcar com as conseqüências de ser visível, não tome partido nessas mudanças. É claro – achar que é um movimento consensioso e voluntário é um tanto quanto ingênuo. Mas, novamente, não é nada que não fizessem anos atrás, pessoalmente. Isso também passou por um processo de tecnologização e de profissionalização.